
Ando angustiado com a monotonia, tento ser diferente daqueles que pra mim não são ninguém, mas no fim esbarro na condição da semelhança com os mesmos. Tenho pressa para que as coisas aconteçam, mas no fim nada acontece, e eu continuo a andar, a dormir, de quarto em quarto, sem um paradeiro fixo, sem companhias fixas, sem companheiras fixas, hoje tudo é passageiro, quando penso em gostar de algum lugar, gostar de alguém, já é hora de ir embora e voltar para o lugar que pra mim hoje trata-se de um pequeno inferno, o lugar onde minhas piores recordações se fazem presentes, e o que é pior, as melhores também, o lugar onde abortei grande parte dos meus sonhos. Mas foi lá onde vivi meus melhores dias, onde conheci pessoas que hoje posso chamar de amigos, onde ao lado deles com os pés descalço passava horas correndo atrás de uma bola... Enquanto lá alguns ainda andam descalços, eu retorno de sapatos, os malditos sapatos, que me colocam em uma condição que invejam alguns e ante aquilo que almejo me rebaixa. Foi lá que dei minhas primeiras pedaladas de bicicleta, pedalas essas que eram demarcadas por poucos metros, as esquinas demarcavam os limites, e eu não precisava mais do que aquilo, passava horas andando de uma lado para o outro naquele curto espaço que pra mim era o suficiente, hoje os limites são maiores, são demarcados pelas fronteiras do Brasil, até alguns dias atrás eram suficientes, hoje já não é mais ante um mundo enorme que há la fora, e que talvez me aguarde de braços abertos, ou talvez não, mas como eu vou saber, se continuar aqui vestindo esses sapatos apertados, sendo igual a eles, vivendo entre picuinhas, sofrendo por coisas tão tolas...
Tenho uma enorme vontade de largar tudo, passo boa parte do meu dia pensando nisso, virou uma obsessão, e no final sempre me ocorre a mesma pergunta, mas que tudo? Não tenho nada, pelo menos nada do que eu almejei para minha vida, dimensionei importância demais para coisas e e pessoas que não merecem tanto, e acabei me viciando em lugar pequeno, com pessoas pequenas, com pensamentos pequenos, e entre esses eu me fazia presente, com meu maldito ópio naquele lugar que era perfeito para os sonhos de um guri e pequenos para os anseios de um homem, naquele lugar que me impõe limites, que me cega. E eu não quero limites, não quero padrões, não quero ideologias, só quero descobrir, o que já foi descoberto mas não usufruido, quero deixar de ser um rotineiro, para um dia quem sabe alcançar o status de pioneiro. Salve Henry Ford.
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